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História e Recuperação PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

“Vede que fresca fonte rega as flores/Que lágrimas são a água e o nome amores”

Com estas duas estrofes dos Lusíadas o lugar ameno, o jardim na Quinta das Lágrimas, entrou na História da Cultura: Ao contrário das outras histórias de amor da Idade Média, Inês e Pedro são reais (com o duplo sentido de estarem ligados também à Casa Real) e encontram-se documentados os locais para onde foram exilados, onde viveram e, quase por milagre, o local dos seus amores, a quinta que se chamava do Pombal existe ainda com o nome de Lágrimas e continua a ter jardins!

A Fonte das Lágrimas deve o seu nome a Luis de Camões e não é uma fonte de pedra esculpida. Sai simplesmente da rocha, limpa, e sempre em suave movimento entra ao nivel do chão no canal que parece relembrar a tragédia de Inês com as algas encarnadas que o povo jura ser o sangue de Inês.

Em 1326, a Rainha Santa pediu aos Frades de Stª. Cruz de Coimbra, donos da Quinta do Pombal, para nele construir um canal que levasse a água de duas nascentes para o convento de St.ª Clara, situado ali a curtos 500m.

“Item pede a dita senhora Raynha aterra hu nascem essas duas fontes e por que possa levar esta água livremente ao dito seu mosteiro de St.ª Clarae hua braça de terra a redor das ditas fontes e d ancho per o cano per o qual ha de hir a dita agua ao dito mosteiro de St.ª Clara hum covado de terra de cada parte e juntado com o ditto cano com todollos seus direitos, per que se possa servir e adubar e de mais cumprir hir vir e estar [...] desta seja contente a dita senhora Raynha...” (26 de Junho de 1326).

A Rainha Santa queria, para além da água, a área à volta da fonte: para ir, vir e estar. O sítio de estar passou a chamar-se, ainda antes de Inês e Pedro, Fonte dos Amores. Ninguém sabe porquê lhe puseram o nome, mas facilmente se imagina que o lugar era tão fresco e tão calmo que atraía a si o que de melhor há no mundo, o Amor. Sagrado ou profano, o Amor é cantado desde a Idade Média como a mais perfeita expressão da felicidade; e o jardim é o seu lugar de eleição.

Do lado da sombra, fica a Fonte dos Amores (um pequeno canal que termina em duas pedras que os tempos revestiram de musgos e poliram suavemente), alimentada pela mina escura, com uma porta talhada em ogiva no Século XIV, de onde a água corre, atravessa o muro e pela Fonte passa para o cano dos amores. Como admirarmo-nos, então, que no túmulo de D. Pedro em Alcobaça, a única  pequena escultura de Inês que não foi decapitada pelos franceses que fugiam das tropas luso-britânicas no início do Século XIX a represente sentada junto a uma fonte? E que outra fonte podia ser se não esta? A simplicidade da Fonte dos Amores é tanto mais discreta quanto mais longe a sua história se enraíza na história de Portugal.

O Jardim  Medieval

Depois do portão, fica o Jardim Medieval que manteve os muros de pedra solta  intactos e recria os ambientes e espécies de plantas usadas nos jardins do tempo da Rainha Santa e de Pedro e Inês. É um jardim pequeno, com relva, uma fonte medieval ao centro e limitado por alegretes onde crescem roseiras em espaldares. No seu limite corre o cano dos Amores de linhas irregulares e por onde a água passa sem parar há 650 anos.

Da Fonte dos Amores continua a correr água. Por isso bastou aproveitá-la para a rega do jardim medieval. A água corre da mesma nascente, é a mesma de que falava Camões e voltam a regar-se flores com água da Fonte dos Amores de Pedro e Inês.

O jardim é todo fechado e na pérgula de vinha e jasmim sente-se o efeito dos tempos antigos, quando a água na fonte simbolisava a vida e quando o jardim era a forma mais próxima do paraíso na terra.

Tal como os músicos, os arquitectos paisagistas assumem o papel de intérpretes de fontes históricas. A Arquitecta Paisagista Cristina Castel-Branco, ao recriar este espaço, assumiu para o restauro um papel criativo que se fundamenta em conhecimentos científicos e em sensibilidade.

As plantas deste jardim foram plantadas nas leivas de terra junto ao canal. São framboesas, morangos, alcachofras, tomilho, acelgas, erva cidreira, lírios e rosas. Desenharam-se canteiros rodeados por pedra onde crescem abóboras, cebolas, violetas, alfaces, mangericão, salsa burago, murta e tantas outras. Sobre uma pérgola de madeira crescem em arco grandes ramos de vinha entremeada de jasmim sempre em flor e atrás das treliças de rosas esconde-se a tenda onde se dão as festas e casamentos.

Uma velha fonte de pedra talhada, hexagonal, voltou a lançar o seu repuxo ao centro e bancos de relva e tijolo lembram as iluminuras dos jardins.

O Jardim Romântico


Durante o século XIX os jardins são de novo um “Locus amaenus de comunhão, exploração, e invenção do Universo, de prefiguração e pregustação do Paraíso, ainda não perdido, da Utopia, ainda não achada.

A magia do espaço criado pelas árvores e pelas águas em lagos serpenteados vai directa ao sentir de quem entra no jardim. Por ali passearam reis e príncipes e o general Wellington e o botânico Brotero plantaram e registaram árvores. Rente às fontes muitos artistas se inspiraram. Fazer colecções de árvores era então um divertimento e as que se plantaram na Qta das Lagrimas eram raras e mais raras se tornaram com os enormes portes que atingiram. A conforeira, o podocarpus, o ficus são três gigantes vindos de outros continentes que se adapataram a esta paisagem de água onde também se expandiu e cresceu um bambusal de troncos grossos no qual se abriu uma clareira e construiu um lago onde se refletem os bambus graças à água que desce pelo canal da Fonte das Lágrimas e ali pára trazendo luz coada ao bambusal.

A Mata

A Mata da Quinta ocupa as encostas íngremes que envolvem a parte plana na qual se foram construindo ao longo dos séculos os jardins, os tanques os canais e as hortas. As duas nascentes saiem no sopé desta encosta. O restauro da mata permitiu encontrar e reparar os muros, caminhos e escadas da antiga mata ordenadas para passeio. As fantásticas vistas da mata sobre Coimbra e sobre a Quinta podem ser gozadas ao longo dos caminhos que sobem ladeados de espessos troncos de enormes árvores da colecção do século XIX. Cedros do Libano, Pinheiros do Alepo, Cedros do Buçaco, Sequoias,  aparecem em enormes copas altas, acima da mata de loureiros, folhados e ligustros que formam o andar mais baixo desta inesperada associação de vegetação.

O anfiteatro (Colina de Camões)

O anfiteatro da Colina de Camões fez nascer na Quinta das Lágrimas uma nova e surpreendente vista de Coimbra. O lago redondo com 18 metros de diâmetro é rematado a pedra grossa como a do lago seiscentista das Lágrimas que lhe fica perto.

A Fundação Inês de Castro queria resolver de uma vez por todas o problemas das cheias em enxurrada e terminar a recuperação dos jardins e mata da Quinta das Lágrimas, que tem sob sua tutela. O anfiteatro encontra-se em ponto de charneira entre o edificio “Quatro Elementos”, de Gonçalo Byrne, já deste século, e a mata centenária. Pretendia-se que ele pudesse dialogar também com a Fonte das Lágrimas (século XVI), a Fonte do Amores (Século XIV) e o Jardim Romântico do Século XIX, e a interpretação de um Jardim Medieval. O programa propunha fechar este anel de pontos de beleza e de história, garantir percursos de ligação à mata, mas ao mesmo tempo criar um espaço que respeitasse o espírito do lugar e dos seus elementos.

Cristina Castel-Branco, com este programa, criou um grande espaço a céu aberto onde se pode fazer música no verão, com bons intérpretes, bons compositores e um cenário de árvores, água e prado para que, num só momento, se possam conjugar o gosto pela música e o gosto pela natureza.

O projecto pretendia também manter a segurança hidráulica de uma massa de água vinda de uma bacia muito inclinada e podendo atingir 3.000m3 e, ao mesmo tempo, preservar a beleza, assegurar amenidade e conforto junto à Fonte das Lágrimas, tirar partido das duas sequóias plantadas por volta de 1810 e já com mais de 40 metros de altura, respeitar o antigo canal do lagar, deixando nele correr a água como vem acontecendo há mais de  quatro séculos.

O anfiteatro estrutura-se no contraste entre a pedra branca e a sombra que faz sobre a relva porque se conjugam (em ângulos sempre diferentes por causa do movimento do sol) o verde, o branco e a cor da sombra. Cristina Castel-Branco desenhou as bancadas, desconstruindo-as, para jogar com este efeito do sol, relva e sombra, atingindo o princípio seminal da land art: manifestar bem clara numa intenção estética a presença dos processos naturais, evitando-se fazer um anfiteatro que criasse uma densa parede de bancadas, sempre vazias, com um palco espectante e que por isso desse a sensação de estar incompleto, flutuando no jardim, como uma personagem à procura do autor.

Auguste Rodin escreveu: “Un art qui a de la vie ne reproduit pas le passé; il le continue”. Realmente uma arte que tem vida não pode bastar-se com a fácil e temerosa solução de reproduzir o passado, deve homenageá-lo com a contemporaneidade que o passado já teve.
O anfiteatro fechou assim um ciclo de sete séculos de jardins. Era essa a vontade. Foi esta a intenção.

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Actualizado em Sexta, 13 Janeiro 2012 00:16